segunda-feira, 10 de maio de 2010

Do convite


Venha caminhar comigo. Esqueça por alguns instantes o peso dos seus ombros e ande comigo por esta estrada que celebra a primavera.
Esqueça as palavras duras, as lágrimas que derramou ontem, esqueça o quanto sofrer nos torna menos sensíveis, e caminhe comigo rumo a uma liberdade que conhecemos. Que nosso coração entende!
Saia do quarto, abra as janelas, vista-se com o melhor vestido, colora os lábios de um carmim mais vivo, mais intenso. Solte os cabelos para que o vento os beije carinhosamente. Saia. Pinte as unhas de um verde vivo. Dance qualquer melodia que venha de dentro; tome um café escutando aquela música preferida. Sinta o perfume das flores, que se abrem para que você passe.
Venha andar comigo., fumar aquele velho cigarro, conversar aquelas velhas falas enferrujadas de carinho e saudade. Venha catar as folhas do chão, desenhar na areia nomes que serão levados pelas ondas do tempo. Venha para que tentemos aprender que o tempo é o nosso amigo de óculos, que usa aquele chapéu engraçado e nos faz rir quado deveríamos chorar.Venha, vamos em passos curtos, longos, demorados, para que de algum modo possamos alongar o instante mágico que nos envolve agora.
Venha com as mãos vazias, com os olhos cheios de coragem, com as palavras mais ocas, venha, ainda que nua de desejos e sonhos, para que nesta estrada reconheçamos outros novos ou velhos ideais. Esteja preparada para o acaso, para o destino, para o trepidar violento dos dias. Das tempestades. Do sol. Venha para que a mãe natureza te refaça outra. Multicolorida. Multifacetada. Para que de vida, sejamos banhadas.
Esqueça as fotografias, elas serão consumidas, esqueça a ferida, que será cicatrizada. Esqueça a falta de coragem. Que em algum tempo será revigorada por um sorriso. Esqueça a ausência, que será povoada. Coloque os óculos escuros, aquele, bem laranjado, para que possa mudar o foco. Ver com outras cismas. Ame, sem que amar seja condição de troca. Deixa que a esperança lhe ensine o caminho a seguir.
Venha, mesmo que por uma hora, por uma tarde. Sigamos juntas, ainda que carregando fardos pesados demais. Seremos de algum modo aliviadas. Respiremos a primavera. Deitemos num chão de folhas coloridas, para que o céu estrelado nos leve a lugares que nunca poderíamos ir.
Venha.Venha, para que o coração possa falar. Seja como for.
(No som "Tears in heaven", um incenso de flores para viajar e na boca, qualquer gosto de morango, para adocicar.)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Menina


Menina,


Espero-te com algum medo e felicidade. Preparo-te o quarto, lençóis e véus, para que descanse depois de longa caminhada.

Sinto-te cada vez mais perto. Sim, meu coração treme, não sei se de esperança ou de amor. Queria mistura tão doce. Sinto-te no íntimo tão pequenininha, escondida, sofrida, triste. Tento amar-te sem resalvas, apesar de tudo. Amar independe de condição. Simplesmente sente-se e quando nos damos conta. Eis que o amor já é imenso. Transbordante.

Lavo e passo seus vestidos de um rosa tão profundo, deixo os sapatos de lã a sua espera na primeira gaveta, Quero que quando chegares, seja eu a primeira a aquecer-te no peito até os pés. Dar-te o conforto que ainda não teve. Que ainda não tem. Saciar sua fome com meus olhos embargados de carinho. Acalmar seu choro, cantanto canção tão menina. Chamar-te de filha. Dar-te nome tão lindo, como aquela canção que vais conhecer um dia.

Arrumo sua chegada quem espera com espera longa. Intranquila quanto a sua chegada. Mas com o coração atento ao seu chamado. Peço-te perdão. Ainda que certas culpas jamais sejam aliviadas. Deixo-te meu enorme carinho. E minha vida. Para que a sua estrela possa brilhar num céu de maio tão profundo como meus olhos.

Desejo-te caminhos perfumados e floridos. Mesmo que por vezes espinhos dancem sobre seu destino. Em algum momento lembre-se do amor. Que pedras e flores sejam sua companhia. Que cante qualquer melodia. Que o sol ou a chuva acariciem seus cabelos quando pensares que tudo está perdido.

Menina, entenda que sinto tanto. Sinto muito.

Entenda que em algum momento estaremos juntas. Livres, dançando tão levemente, sobre o barro do qual nascemos, nos tornamos vivos. e quando isso acontecer, em paz, estaremos mudas!


Amo-te com o amor mais puro!

M.

Ao homem que amo


Meu amor,


Suas palavras me acertam com certa mácula. Procuro nos teus olhos qualquer sinal de verdade. Mas encontro apenas sonho.

Suas mãos me levam para certo maravilhamento que não descrevo. Sinto. Entrego-me ao seu desmedido toque e me a-lu-ci-no!

Teu beijo, tão doce e feroz, arranca-me a alma como se para o lado de fora, exposta, contasse-lhe segredos que não revelo, mas que você insiste em se apropriar deles. Para que no íntimo mais secreto, eu também seja sua.

Seu corpo, quando pesa sobre o meu, num ritimo acelerado, convence-me de que a sincronia existênte entre nós ultrapassa qualquer combinação melódica. Inventamos a nossa música. Nos deixamos atentos aos sussurros. Criamos nossa (des)armonia.

Seu sono, tranquilo e silencioso, quando observo, leva-me ao desejo de cavalgar contigo. Vasculhar os cantos do seu país tão desconhecido. Desejo navegar em tuas águas tão limpas. Causa-me delírio o teu sono profundo. Vejo dançar sobre teu rosto um menino tão puro.

Seus cuidados, atenções e compartilhamentos me enchem de alegria. Sinto que posso descançar ao teu lado, adormeço em teu ombro porque em ti tenho a calma que busco. A paz que tantas vezes me foi negada.

Me entrego sem qualquer culpa. Amo-te sem qualquer medo. Poque amo-te com um amor maior que compreendo. Que alcanso. Mas que sinto.

Seus olhos, desse verde-azul tão fascinante ah! esses DE-LI-RO! Danço lá no fundo, abrindo cada vez mais sua pupila. Entrando cada vez mais fundo para dentro desse coração tão humano e sensível que me abriga.

Eu te amo. Perto ou longe.

Seja como for.

M.

(nos som "eu te amo" e um incenso de Sândalo. Na boca o seu gosto, que o vento dessa manhã tão fria me trouxe assim que abri os olhos e senti sua ausência tão profunda!)

Carta ao Tom


Querido amigo,


Ando sem coragem para dizer a palavra mais humana. Estou com medo de acertar qualquer coração apaixonado. Resguardo-me na intensidade das horas, carregando um silêncio sem fim. Engolindo pedras que ainda não dissolveram dentro de mim.

Sinto-me repleta de tudo e nada. Numa mistura a emudecer e a provocar febres. Minhas crises tem cido agudas e a persistência do vazio anda me enlouquecendo.

Seus hibiscos continuam florindo, há uma certa naturalidade na vida dessas flores. Alimentam-se de lágrimas e são cada vez mais bonitos e vermelhos. Parecem sangrar comigo. Mas de uma maneira muito mais delicada. Muito mais humana.

Esperei por dias sua chegada, seu telefonema, alguma carta, mas, entendo que a vida não tem brincado de infância contigo também. Resta-me lembrar das tardes que dividíamos o algodão doce na praça e os intermináveis sorvetes na rua do meio.

A sua lembrança miúda me faz pensar em como somos inesquecíveis...em como deixamos retalhos, remendos em outras pessoas. Bordamos com cada um o desenho que achamos mais sincero. Embora nem sempre somos encarados como verdadeiros.

A saudade manda dizer que está por um fio. Que anda corroendo por fora. Já que por dentro, valsa tão triste a se perder de vista, sem qualquer sinal de calmaria. Os dedos já escorrecam com dificuldade. Escrever-te é uma tortura imensa. Apelo para a distração, deixo que a caneta escorregue. Que escreva sozinha. No pulso do impulso. Porque não posso.

Precisa vir logo. O jardim sente imensa falta de suas mãos poéticas, a acariciar suas folhas e flores. E meu coração sangra por qualquer nota desarmônica que sua intensidade arranca do piano. Ele também está mudo. Não posso comprometê-lo com minha falta de dom.

Queria sair caminhando sem qualquer rumo. Ouvir qualquer instinto, caminhar por qualquer ponte, estrada. Parar em qualquer esquina, tomar qualquer coisa que fosse doce. Molhar a boca de palavras tropicais. Para que no inverno elas possam ser meu alento. meu acalanto.

Mas continuo dançando com as horas. Esperando qualquer impulso. Qualquer sinal. Continuo intacta aos abalos que tremem minha alma e me desnudam.


Ps: espero-te para qualquer acidente.

Com enorme carinho.

M.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Do encontro que sempre temos

"Encontro-te na mesma hora bruta de sempre. No mesmo lugar, para que de rotina nossos dias se encha e transborde.
Espero-te com a mesma fome e o mesmo medo. Com a estranha sensação de que serei devorada. Na mesma hora marcada há anos atrás, quando ainda brincávamos de descobertas.
Encontro-te com a mesma febre. anti-térmicos não sutem efeito. Queimo de um desejo inventado. Assim como suas mãos, trêmulas, ainda, buscam qualquer conforto em minhas curvas.
Espero-te com a fala cansada, imprecisa, pungente. Recebo-te ainda quieto, num silêncio absurdo. Que até hoje não sei se de fuga ou entrega. não importa. Nunca nos importamos muito. Queremos apenas saciar nossa euforia. Queremos sempre apenas o gozo mais profundo, para que por alguns intantes nossas almas se tranquilizem. Ainda que vivamos em tempestades infindas.
Espero-te com o mesmo vestido, com o mesmo olhar distraído. Com o mesmo frio, com a mesma pergunta. Para que de cotidianos, nosso desejo dure. Estarei confusa como na primeira vez. Me entregarei com a mesma fúria. Te receberei com o mesmo sorriso, a mesma malícia. Porque você também vem assim, com as mesmas resalvas, com os mesmos gestos. Com a mesma fome, com a mesma língua.
Atearei fogo em seus projetos e tu, impiedoso, matará em mim a sede de um suspiro. Trocaremos carícias perdidas. Porque estamos perdidos. Faremos amor como sempre. Num exercício de fixar a mesma sensação, o mesmo gemido. Precisamos dessa repetição. Somos fantoches. Acreditamos no ensaio dos corpos. Talvez para calar qualquer outra emoção que não conhecemos e temos medo. Talvez por apenas ser cômodo amar sem tanta loucura.
Esperto-te. Sem qualquer medo de que não apareças. Porque sei que estás tão à minha espera quanto eu a tua. Sofremos pela mesma necessidade. E isso nos faz ainda mais juntos.
Na mesma hora. No mesmo lugar."

( no som, um jazz muito antigo, um incenso de Morango para nunca esquecer e na boca, a mesma bala de caramelo de sempre, para excitar!)

Do amor mesmo doente

"Era áspero amar-te. Doia como se dói aqueles arranhões da infância. Ardia. Parecia que bordávamos em carne viva qualquer sentença a nos tornar cada vez mais presos. Estávamos condicionados ao cárcere , sem que a memória pudesse ser refúgio da liberdade. Não pensávamos, sentíamos desmedidamente.
Era doce, ainda que muito violenta a forma que nos amávamos naquele quarto. Rancores e afetos, mordidas e beijos tão demorados. Não sabíamos se morríamos enfim de amor ou de ódio. Suas mãos tateavam em mim qualquer paraíso, qualquer renúncia, em ti, com a ponta dos dedos, eu buscava qualquer certeza morta, qualquer carinho escondido, qualquer verdade inventada. Nossos olhos perdiam-se entre o azul e o castanho, nma mistura de almas confusas e apaixonadas. Desesperadamente.
Em nós existia qualquer coisa de fuga, de esconderijo, qualquer coisa de urgente, embora jamais pudéssimos saber que coisa era esta exatamente que procurávamos. Estávamos atrelados numa costura firme, em gestos demorados e doentios. Éramos dois em busca de um encontro único. Ainda que a unidade estivesse comprometida. Inutilmente.
Queríamos amar com um amor maior. Com menos silêncio, com menos surdez. Com mais música e menos pedidos. Queríamos que esse amor acontecesse de qualquer forma, mesmo que para isso fosse preciso esquecer de fato quem realmente éramos. Para findar numa existência múltipla, porém única.
Era farta a fome, a sede, a coragem da entrega. Era insondável as medidas que nos cabiam. Parecíamos, enfim, perdidos dentro desse nós que construimos sem saber ao certo onde começávamos e terminávamos. Bebíamos de uma fonte inesgotável de ilusão. Que secou. Que nos deixou imundos. Que nos deixou saciados. Em estado de overdose.
Extrapolamos a capacidade de entender o que de fato havia nascido em nós. Estávamos completamente loucos. Doentes, em estado terminal. e isso não foi suficiente para que acabasse. Ainda sim fundíamos cada vez mais, misturavam-se ainda mais nossas dores, nossos desafetos. Nossos carinhos eram sangrentos e nossa fala já estava perdida. Gozávamos motivos desconhecidos, mas ainda sim gozávamos. Estávamos irreparavelmente amaldioçados pela paixão que concebíamos. e ainda sim, seguíamos. Presos pelos pés. Correntes nos dentes. Gume nas línguas. Ainda que um dia possamos estar livres.

Ps: Eis que por isso acaba, precisava que o teu amor me libertasse do silêncio, que juntos pudéssimos ter dançado sua incrível melodia, mas não, não pude dançar sua felicidade!

Ainda sim te amo!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

De uma despedida

Ao som de "Insensatez"
e um incenso de Alfazema. (para doer menos)

"Estou indo, talvez cedo demais, talvez tarde;não sei. Sei que vou. Com a respiração ofegante e o coração machucado. Refaço as malas e deixo as chaves sobre a mesa. Não deixarei bilhete. Apenas ausência. A falta de palavra. O não-verbo. porque em mim se desfez a ação. voltei ao luto. estou atrelada a dor e não posso mais.
Estou indo. Na cabeça uma canção antiga. no pulso ainda aquela fitinha amarrada com os desejos inventados. no coração a enorme falta de tudo, como sempre foi. sempre. Vou sem a paz que em teus braços busquei. e tive. por algum tempo. vou, porque não quero que o amor morra. que a fogueira se apague. então, antes que seja tarde, vou. para que mais tarde o encontro seja definitivo. ou não seja mais. seja como for.
Estou indo mesmo querendo ficar. precisando ficar. mas indo. escolhas esfaceladas. pisando na ponta dos pés para que nem barulho eu faça. mesmo quando quente a lágrima escorre. vou. mesmo sabendo que nos seus braços tenho a calma. ainda muitas bestas a domar por aqui. estou perdida, cega. e por isso também vou. para que não leve de ti o mais bonito. engolindo o soluço rouco, vou. para te devolver a paz. porque estou em guerra.
Estou indo, ouvindo a canção da despedida. ouvindo sua fala abafada em súplica para que eu fique. mas indo. a estrala será de enormes percalços. sem ti, ainda contigo nos olhos, nas mãos, ainda mais difícil. mas vou, para que depois não fique tarde!