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quinta-feira, 17 de março de 2011

Escombros III


Os dias foram entrando casa a dentro. As palavras foram mofando de tempos em tempos. As frutas da geladeira deixaram o doce amargar. As folhas começaram ficar amarelas. O sentimento mudou de lugar como qualquer móvel da casa;
Os meses passavam com o chegar dos sêlos das cartas que vinham de longe. Nunca mais houve diálogo. deleitávamos ou fugíamos em monólogos extensos. Era fácil saber quando já era noite; a palavra adormecia.
As horas foram nos devorando. os cabelos e a barba crescendo feito grama regada por chuva. a esperança vai mudando de cor. vai se refugiando de um verde-azul que anda longe. perdido? (!?)
As verdades vão se dissipando num espaço chamado vazio e a alegria vai incomodando. Parece que ser triste é ser-humano. condição.
Soletrar palavras é denunciar qualquer desespero que não grita; geme. escrever torna-se impossível porque palavrear coração é tarefa que foi dada a poetas. (não sou?!) devagar vou deixando que a saudade traga de volta qualquer vestígio ou pista de que felicidade existiu. e sorrio. mesmo que neste sorriso aja mais tristeza que vontade.
no fundo,
adormecer é mais difícil que pensei."

terça-feira, 18 de maio de 2010

Do outono ao seu lado


("Meu amor, venha ouvir Beatles comigo!")
Espero que neste dia, eu esteja livre e possamos caminhar pela calçada de folhas secas e conversarmos sobre as nossas escolhas.
Mas, não deixe de vir, para que nossos corações nos fale de como ainda nos amamos e como seremos felizes, mesmo tão distantes.
Meu amor, esqueça o tempo, somos jovens, temos tempo, e venha ouvir Beatles comigo. Será delicioso dividir a mesma xícara de café, o mesmo gosto, a mesma fúria depois de tanto tempo longe, depois de tanta saudade acumulada. Depois de tantas misérias vividas.
Venha, mesmo que por poucas horas, para que tenhamos lembranças depois. Para que eu possa lhe escrever uma carta e você responder num cartão postal, seja de onde for.
Ah, meu amor! Venha ouvir aquela linda melodia que tanto me escorre dos olhos, que tanto me obriga a pensar em você tão longe, tão ausente. Venha, antes que esse tarde que tantos falam, realmente chegue para nós e nossos nós não sejam mais possíveis em laços de fitas coloridas. Venha, para que dos teus olhos eu roube mais uma chance, mais uma dúvida, para que de sua boca, mais um beijo, e de suas mãos mais um toque, e de seus braços, mais uma palavra roubada e escondida.
Venha, meu amor, que te espero vestida com aquela canção mais doce, mais farta, com os panos mais leves e mais curtos, para que em mim percas o motivo, a cabeça, o juízo.
Ah, meu amor, venha ouvir Beatles comigo, aolha-me em teu braço mais firme e vamos juntos celebrar esta tarde que cai tão bonita e azul sobre nossas cabeças. Sejamos por um instante livres, limpos. E gozemos de qualquer coisa que de fato desejamos, porque precisamos ser despudorados, meu amor! Venha, que te cabe aqui, no colo, nas coxas, nas mãos, nos olhos, no peito. Vem que te recebo intacta, com o mesmo sabor de cereja de antes. Com o mesmo cigarro de sempre, com a mesma mordida no canto da boca, de sempre!
Venha, proponha-se a este desfrute de um outono tão grandioso, tão falante, tão. Disponha-se a mim, nem que só por este instante.
("meu amor, espero-te mais m pouco, depois durmo e fico tão triste, caso não chegue.")
M.

sábado, 17 de abril de 2010

Da ternura

No som qualquer coisa que acalma
e um incenso de Flores do Campo (para enfeitar)

"Ela dançava como quem escutava suas vozes interiores. Parecia não ter medo do mundo nem da maldade. Ela simplesmente dançava, como quem entende o coração pulsante daquele instante mágico.

Ela tinha verdade nos olhos e sua pele suava todo o sentimento que não cabia do lado de dentro. Estava enfestada de anjos, ria dos demônios do seu espírito, porque alí, estava em estado de pura graça.

Conhecia sua fome, tinha sede de pequenos delitos. Seus delírios misturavam ao balanço suave dos seus longos cabelos pretos. Amava com o amor puro. Desejava com ofuscantes raios vermelhos nos olhos. Nas mãos tinha a coragem de guiar e nos pés a febre mais que humana de caminhar.De sempre ir seguindo.

Ela dançava a felicidade. Exaltava com o coração puro as belezas do mundo. Chorava por vezes de certa alegria mansa. Ria de si. Embrulhava os outros como presentes. Carrevaga-os consigo como patuás de sorte. Vivia intensamente o momento, para que de saudade morresse depois.

Ela tinha nos olhos qualquer brilho de menina, sendo uma mulher inteira. Feita a mão. Em todas as curvas. Pedia em versos mudos que apenas não a julgassem, porque ela apenas vivia. E não existe critério para julgar a vida. Ela fazia desenhos no ar, qualquer pedido como a propagação da paz e do amor. Exaltava a lua e se sentia filha da mãe natureza, que a concebia todos os dias.

Ela tinha todas as cores. Vestia-se de ideais e não se intimidava em travar todas as lutas por eles. Era firme e mesmo assim parecia, assim de longe, uma flor da manhã, desabrochando enfeitada com orvalho da madrugada. Conhecia o mistério que rondava todos os corações. Floreava histórias que lhe pareciam tristes, para dar certa leveza ao mundo.

Ela dançava com o mundo, ao som de um coração cheio de esperança. E eterna ternura.