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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Súplica


"Salva, qualquer súplica, qualquer palavra desmedida. Salva, qualquer que seja a redenção. porque não quero morrer em pecado. porque não quero morrer de amor. Pois de amor é preciso que se viva!


entra e arruma tua cama, tua mala. escreve em mim bilhete de saudade. deixa em mim, qualquer gosto ou mau gosto. porque em ti sei que é meu aroma que te acompanha. remeta qualquer carta, cartão postal, ou deixa que o silêncio maldito das horas nos afaste para um sempre que jamais esqueceremos.


Devolve, de qualquer maneira o escarneo úmido que nos fez tanto em noites de gozo profundo e poucas verdades, poucas certezas.porque de paixão eis a redenção e o renascimento.porque de paixão eis a vida e a morte, seja em qual for circunstâncias.


entra e arruma em mim qualquer motivo para o beijo, qualquer desculpa para o abraço, qualquer consolo para o choro. porque em ti, terei abrigo, porque em mim de joelhos reza qualquer ladainha, porque em mim tens seio da vida.


Salva, qualquer mentira ou verdade, qualquer desejo ou farsa, para que bêbados possamos comemorar a evidência de nossa ingenuidade. para que felizes possamos morrer sob um céu estrelado ou não. para que de amor sejamos convencidos e vivificados.


Devolve seja como for aquele olhar que me aquece, que me motiva, que me protege o seu lugar devido dentro de mim, devolve todas as palavras e ensina-me como amar-te com silêncio e verdade. porque de ausência estou farta.


entra e arruma em nosso canto qualquer recanto de fuga, qualquer pedaço de ternura, qualquer fatia de amargura e juntos comamos o pão de todo dia, ainda que de vinho e água sejamos feitos em diferença. porque em nós há enorme vontade, enorme fome, enorme façanha, enorme febre. porque em ti, eis fato tão consumado em mim, porque em mim eis acidente tão conformado."



quarta-feira, 16 de junho de 2010

Do ato


um frio arrepiando, palavras quentes a derreter na língua um caramelo. a brisa, embriagada ao som de qualquer jazz volta-nos ao primeiro estágio de encantamento. mãos afoitas caminham procurando porto, segredo, desejo. olhos cheios de uma lágrima ausente nos embarga a soluços de um amor atrasado.

(...) fazia tempo que não nos amávamos.

viscos, salivas e surpresas tonteiam as sensações banhadas de um vinho esquecido na garrafa no chão. a cama, quente, definitivo esconderijo de quem ama, acolhendo qualquer gemido agudo ou mudo. abafado por qualquer jura que certamente será esquecida.

(...) fazia tempo que não nos entregávamos.

papéis pelo chão, cortinas cerradas, beijos robados entre dentes e pedidos, abraços que se perdem na intenção de acolhimento, somos devorados. esquecemos o tamanho da nossa certeza, desejamos navegar por mares desconhecidos em nós. precisamos nos afogar. para que de qualquer paixão morramos sobre a tarde e a noite que começa lá fora tão branda.

(...) fazia tempo que não nos esquecíamos assim.

os corpos em volúpia tremem a escuridão das sombras do quarto, não haverá mais palavras, não haverá mais desculpas, silêncio e som numa mistura a calar nossas verdades absolutas. teu corpo morada da minha vitalidade, meu corpo, seu esquecimento, abertos, inteiros, mordidos.

(...)fazia tempo que não nos desejávamos tanto!

qualquer melodia infeliz. qualquer cheiro que passasse despercebido. alguns sorrisos notados, algumas lágrimas amassadas, muitas sensações emboladas a nossos pés. em nossas pernas que já não andam, que roçam, esfregam-se seios e ombros, para que de prazer possamos banhar o instante.

algumas mentiras esquecidas na gaveta do criado mudo, a vela queimando a sálvia deixada sobre o tapete. as pétalas coladas ao suor do exercício anterior. e o amor, tão manso a comer nossos nomes, nossas peles, nossas vidas.

(...)fazia tempo que não me despia tanto!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Escreve


"Escreve no meu corpo qualquer carícia sua.
deixa em mim qualquer vestígio seu.
qalquer desejo que conheço e realizo, mesmo quando cansados esquecemos a janela aberta e nos amamos para o mundo.

Escreve no meu corpo qualquer arranhão, qualquer mordida. deixa que de leve minha lembrança depois me devolva a incrível sensação daquele momento.

Escreve no meu corpo sua palavra mais bonita. mais sincera. mais safada. mais desmedida. porque em nós quando na cama, nunca sobemos medir qualquer gemido.

Escreve no meu corpo sua saudade mais aguda. para que de lembrança eu morra a tua espera. para que de desejo eu sufoque qualquer pedido. para que de amor eu viva a tua chegada.porque em nós existe qualquer sintonia de dor. muitos pedidos de desculpas.

Escreve no meu corpo teu desejo mais profundo, para que de confusões, delírios e fugas, nos encontremos sempre.

para celebrar o amor que deveras sentimos um no outro.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mudez

Roubas minha fala cantada. Minha palavra encantada. O meu silêncio de qualquer paz exacerbada. Roubas meus olhos causando cegueira eterna... Entre retinas e visões, amores, ardores, paixões.Roubas gemidos que minha língua estala. Queres mordida. Fala desmedida que roubas som, sem escrúpulo. Roubaste. Sem que eu tivesse controle. Meu corpo exercício da tua reflexão, já responde estímulos, palavras que me tiraste quando cega entraste por aquela porta.Roubas meu estado de graça. Ensina-me o vôo da tua liberdade azul. Logo eu, tão atrelada às vírgulas, explicações, hoje, hoje estou muda. Imersa no silencio dos fatos consumados. Roubas assim meu desejo, minha lucidez, minha pele, minha escuridão. E até minha morte você rouba.Roubas verso por verso, meu reverso. Atrela a minha queda ao teu estado cego... Roubas então minha vontade e eu me entrego. Deixo-me ser roubada para recuperar no teu ventre tão veraneio, todas as sílabas do meu desejo. Me deleito. Delicio-me. Gosto do estado mudo. O sentir por dentro. Remoendo, repuxando. Improvável ação para quem é da fala, do grito. Do gemido. Para quem é do assombro a fala manda e desmanda. Te atropelo. Tu me assaltas.Roubas então também meu silêncio. Aquilo que eu pensava ser apenas meu. Rouba o segredo, a fórmula mágica. Mete-se em mim em recantos que só eu sei o caminho da volta. Você, atrevida, vai... Trilha estradas que são regidas por minha fala sensorial. Muitas vozes, agora emudecidas. Porque tu roubaste não só o som, mas a palavra em sua forma mais bruta. Mais cruel. Dentro da flor do meu querer.Atentas então para o que te imploro gozando de uma loucura, de um tesão, de um roçar das peles. Atentas para o arranhão que talvez seja cicatriz da noite anterior. Atentas para o ruído sensorial do corpo que você implica forma. Pois não há mais ruído, apenas existência.Em sua severidade absurda, roubaste não só o dom da fala. Mas também as falas das noites tropicais. Essas secretas, solfejadas, e desejadas falas que tu tomaste apenas para ti. Mais nada. Despertou em mim depois daqueles todos os gemidos, certo silêncio e fúria.Então na tua cegueira mora demasiadamente a minha mudez. Parada. Estática a um estado de espírito. O mesmo. Igual em desejo e medo. Igual em entrega e labirintos.Atentamos então para os recados da pele, suas memórias, sinais que emitem fogo. Atentamos então para o ruído que nos impulsiona. Que nos torna livres e cada vez mais presas. Ele é multicolorido, e a-z-u-l.