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sábado, 10 de julho de 2010

JOANA


"O cigarro aceso, a coca cola, os livros espalhados na cama, as roupas ao avesso no armário que prometera arrumar dias atrás. Esta é Joana, a menina mais rebelde o mundo. A que de sonhos enfeitou os seus braços, a que de amor morreu tantas vezes a não se acreditar, a que de repente cresceu tão pouco que ainda cheirava infância e jujubas;
de repente, Joana, tão ativa, tão infâme, tão mulher, pensou que amava este para sempre. sem mesmo saber onde era que começava tudo que sentia. Acreditou nesse pequeno delírio, mastigou e engoliu com tanta paixão, que de repente, mesmo assim, depois de um tempo diregida, ainda sim morreu mais uma vez de um amor que não queria. que não esperava.
mas que sentia.
Quisera ela ter feito as malas, fugido, abandonado, antes que deveras fosse tarde, antes que deveras não houvesse nada, mas, assim, medida por medidas desconhecidas, assumiu o desejo de ficar, sem muito pensar se realmente podia. Ficou. Porque no amor de Joana é assim. Instaura e fica. Não pede permissão. Não se acomada com aquela ternura dos apaixonados. Necessita de pavor, de fúria. de medo; de arriscar qualquer consequencia. Tenta ela, nesta mistura popularizar o amor romântico. Romantizar qualquer gesto insconsequente. Qualquer palavra problematizada. Qualquer sentimento engasgado.
Sim, esta é Joana, uma única em tantas, camaas e camadas de verniz, camadas e camadas de sentimentos brutos, de horrores brutalmente enfeitados. Jarros sobre a mesa de um crime tão passional quanto ela.
Sim, assim é essa Joana, de cabelos vermelhos, de olhos arregalados, de pele tão clara a perder-se em páginas tão brancas de palavras tão sujas. Sim é esta a Joana, tão enfeitada e divertida. Tão cheia de alegrias. Tão devotamente acompanhada. Sim. É está que vos falo. Menina tão mulher a trepidar. a derrubar em penhascos certezas de uma vida inteira.
Sim, calado a espreitar Joana, vos digo:
- Joana, tão bandida, tão menina. Tão cúmplice. tão Joana."

terça-feira, 25 de maio de 2010

Do Escrever



"Eu escrevo porque não sei fazer outra coisa senão ouvir palavras dentro de mim. Escrevo simplesmente porque me render é mais fácil que resistir. é mais intolorente que suportar. Por isso escrevo também, porque não conheço outra forma de ser mais irresponsável e intolerante. Latente. Pulsante.

Escrevo porque não cnheço melhor e pior remédio para minhas pestes. e não conheço maior segredo que domine todas as minhas bestas. por isso também é que escrevo, para que de silêncio eu jamais morra, para que de ausências eu esteja resguardada;mesmo que na companhia dos meus fantasmas. de suas vozes falsas, de suas verdades postiças.

Escrevo, portanto. escrevo para que de amor eu possa colorir os dias, e de raiva semear minha morte. escrevo para que de saudade jamais morra. e morrendo que deixe registrada num bilhete, sobre a cabeçeira.

Também escrevo sem motivo algum. apenas pelo hábito tão vil de deixar que a fala escorra pelo canto das unhas. que depois de salivá-las, elas possam molhar qualquer papel. qualquer coração. qualquer olhar perdido que divague por minhas loucuras.

Escrevo por falta de coragem. ou por audácia. para que de rancores meu coração jamais feneça. ou murche. como o de muitos que encontro caídos. Por isso também, para que eu não caia sozinha. que leve para dentro do meu abismo todos aqueles que em mim falam. porque jamais pude dar ao verbo vida sozinha.

Escrevo para que de febre não morra. e se morrer, que fique clara a falta de jeito. escrevo para me salvar da morte. para me salvar de mim. dos outros. de tudo."


**em homenagem ao Blog "Por que você faz poema?" do Herculano.


terça-feira, 6 de abril de 2010

Da organização


No som "Amanhã"
e um incenso de maçã(para relaxar!)
"Deixem as coisas assim como elas estão. Essa organização pequena, de miudezas me faz dona desse espaço que vivo. Deixem que a como está. Do lado de fora pode haver quem queira sentar. As fotografias são memórias de um tempo muito presente. Ontem. Porque tudo está alí tão evidente que ainda imprime cheiro e gosto.
Deixem o sofá a espera de um corpo que logo irá deitar. Devaneios ou descanso. Tesão ou ternura. Depende da companhia ou da falta dela. A solidão por vezes me excita. O silêncio me empresta certa música. Deixem portanto a janela aberta, a noite será observada por olhos atentos. Com olhos de fome.
Deixem que os papéis sejam levados pelo vento. Que a claridade extrapole as cortinas e que de leve o sol possa cintilar teu brilho no chão, palco de pés apressados e barulhentos.
(...)
Deixem os meus sonhos impressos na forma. Não alterem a divisão dos fatos. Não se iludam, nada está tão evidente quanto parece. Não tenho fôlego para sustentar verdades tão escancaradas. Tenho certas reservas. Sou tantas que as vezes esqueço de qual verdade represento.
Por isso deixem minha organização mínima, nesses mesmos lugares, mesmo que as sensações mudem, porque em casa, nessa perfeita ordem, mesmo sendo muitas, preciso da afirmação de um lar. De um certo afeto. de um certo aconchego. para nunca de fato me perder.
(na boca, certa amargura, no ar, certa ternura)
Não entenda, apenas sinta!

terça-feira, 16 de março de 2010

Do inventar


No som "Muito romântico"
e um incenso de rosas (para delirar)
Inventei de viver. - Vivi o que inventei!
Tantas vezes pressenti desejos, aos poucos, queimaram todos em mim. Tantas vezes pintei alegrias, muitas vezes, sorrisos inventados foram meus ainda que de tantos outros.
Tantas vezes inventei de me perder, me perdi e encontrei muitas outras, que não inventei, que simplesmente existem. De-li-ran-te-mente!
Inventei de inventar palavras. -Arrisquei-me em pré-sentimentos,
anti-verbos, algumas ações.
Aos poucos me refiz em adjetivos pontiagudos e obtusos.
Alguma vez deixei-me doce, para que a fome do amor, saciasse meu espírito.
Também inventei de amar. E amei. Amei com um amor que criei sem metades.
Sempre fui inteira. Ainda que metades façam de mim inteira-metade de uma das faces do que realmente re-pre-sen-to!
Inventei quereres. Quis tanto que nem sabia o que era.
Hoje sei segundo outra invensão.Inversão de valores, troca de ideais.
Mas ainda quero. Preciso.
Aos poucos fui querendo mais e sempre mais.
Bebo na fonte dessa criação e me banho de malícias.
Aos poucos perdi alguns desses quereres. Lampejos de minutos atrás. Mas que ainda pulsam, doi-da-men-te!
Inventei que ia me inventar outra.
Lírica. Eu ao avesso. Evidente.
Brotou face a face com o que fui antes e o que ainda sou agora, por uma questão de irracionalidade.
Inventei a paixão em mim e com ela o nascimento;
-Se estou viva?
...talvez um dia ainda invente isso!
Vida!