quinta-feira, 13 de maio de 2010

Nós



"Sempre estive a procurar por você dentro de mim. Vasculhei todas as gavetas, todas as roupas que deixei ao avesso, em todos os bilhetes que nunca entreguei, em todos os versos que li.

Sempre estive a sua procura dentro do meu deserto, nas minhas flores da janela, sempre no último trago do cigarro que apagava com certa renúncia naquele cinzeiro azul. Sempre estive a esperar-te vivo, com estes olhos a confundir meus delírios, a me deixar sempre nua. Sempre busquei a ti em minhas rezas e romarias, em meus desabafos e fúrias, em meus gestos e gemidos, em minhas descobertas e fugas. Sempre;

Sempre estive a rondar-te por dentro, fui construindo sua fala tranquila, suas mãos de pecado e ternura, sua respiração tão doce e segura. Sempre busquei a ti, em todas as canções de roda, em todas as festas de São João, nas colchas de retalho sobre minha cama, sempre. Sempre me perdi em labirintos noturnos a procurar-te em qualquer esquina, em qualquer canção, em qualquer praça, banco, rua, escuro. Desenhava em mim pedaços de te que foram se formando aos poucos, fiz, de certo modo seu auto-retrato, bordei em sangue, em verso, em amor. Um amor que esperava, com certa paciência. Com certa demência.
Sim, sempre busquei a ti, num exercício de calar minha dor mais funda, de povoar meu deserto mais árido, mais improdutivo. Busquei-te para regar as flores liláses que se firmam na intensidade do que sou, olhos a dentro.
...
e encontrei-te depois de um tempo, tão inesperadamemte que o assombro me fez amar-te imediatamente. desesperadamente....
e hoje, aqui estamos, de mãos dadas,caminhando para dentro e para fora do sempre que te esperei, fumando aquele mesmo cigarro da minha espera, ouvindo canções a nos despir no sexo, na transa, no amor, estamos aqui, rendidos um ao outro porque outro dia sem que eu esperasse veio de ti uma deliciosa confissão: "a ti tmbém sempre esperei e aqui estamos!"
Eu te amo!
M.
(no som "Vieste" , um incenso de Lua, para nos abençoar, nas mãos toda uma semente a germinar flores silvestres, nos olhos aquela lágrima de saudade e desejo, que sempre escorre quando me tocas com profundidade e na boca, seu gosto que se impregna em cada fio de cabelo meu, em cada poro aberto, que exala vontade maior ainda de te ter!)

3 comentários:

  1. A gente sempre procura algo que não sabe se vai achar.
    Achei muito legal saber que faz cinema ;)
    Meu sonho... Não fosse a timidez rs
    Queria muito ver Clarice no Teatro, nunca tive a oportunidade.
    Bom, Caio Fernando é realmente um querido pra mim, e o engraçado é que ele se inspirava bastante em Clarice e Virgínia... Ele dizia que Virgínia era a padroeira dele.
    Nunca escrevia sem uma foto de Virgínia na frente. Aprendi a gostar de Virgínia pelo que ele fala dela nos livros... E a gostar mais de Clarice!!!! Ele a cita bastante também.

    Beijos e um dia claro...

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  2. Gosto da maneira com que você trabalhas as entrelinhas...

    Você não deixa escapar nada!

    Abraço

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  3. ai Mel.
    esse seu texto me faltou palavras.

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